Esquina publicada na Revista Piauí- fevereiro de 2007

Uma história nidícola
por Ricardo Teté

Cleusa Aparecida de Lima e Bencion Moisés Sznajedleder Rutko se conheceram no final dos anos sessenta.
Ela trabalhava como segurança no antigo Mappin da Praça Ramos, em frente ao Teatro Municipal. A indicação para o emprego viera de um colega de sua cunhada, então delegada no DOPS- o hoje senador Romeu Tuma. Era obrigatório fazer um curso de defesa pessoal, o que não representou grande desafio para essa mulata forte de 1,72m, que desde então já correu muito atrás de punguista. Na maioria absoluta das vezes, conseguia agarrar o larápio e arrastá-lo, frequentemente sob protesto, até a sala da segurança do magazine, para registrar a ocorrência e, eventualmente, chamar a polícia.
Moisés ia regularmente ao Mappin entregar mercadoria ou fazer cobranças para a
Três Balões, confecção de roupinhas de bebê criada por seus pais, judeus poloneses que chegaram ao Brasil quando ele tinha um ano de idade. Aproveitava pra pedir informações à vistosa vigia que, solícita, acompanhava-o até o setor adequado. Bastaram três ou quatro encontros desse tipo para que Moisés tomasse coragem e propusesse a Cleusa de esperá-la ao final do expediente. Foram até uma lanchonete perto dali e Moisés disparou à queima roupa: “Quero namorar com você”.
Os hoje quase sexagenários Cleusa e Moisés foram talvez o casal mais aplaudido na noite do último 11 de dezembro, durante a cerimônia coletiva de casamento organizada pela Super Casas Bahia no pavilhão do Anhembi. Quatrocentos casamentos foram realizados em quatro segundas-feiras consecutivas durante o megaevento. Sem custo nenhum para os noivos, a cerimônia civil foi celebrada simultaneamente por quatro juízes de paz. Cada casal teve direito a trinta convidados, ganhou uma foto souvenir que simula a capa da revista “Tititi”, bem-casados e champanhe à vontade, além da hospedagem para a noite de núpcias no Holiday Inn.
Naquela segunda-feira, entre os mais de mil espectadores, um grupinho de cerca de quinze pessoas estava em clima de final de Copa contra a Argentina. Eram os convidados de Cleusa e Moisés, todos parentes da noiva. Os parentes de Moisés não foram sequer avisados da cerimônia. É que as relações do casal com a família Rutko andam um tanto estremecidas- há mais ou menos 36 anos.
Ao se estabelecer no Bom Retiro, o casal Rachela e Aron Rutko não estava propriamente disposto a mergulhar no melting-pot brasileiro. Sobreviventes do Holocausto, os Rutko rapidamente refizeram seu pé de meia em São Paulo. A loja e confecção Três Balões, com sede na rua José Paulino, funcionou a pleno vapor nas suas pouco mais de três décadas de existência. Jacó e Marcos, irmãos de Moisés, casaram-se com duas moças judias. Ambos tiveram cerimônia celebrada pelo rabino Henri Sobel e festa realizada no Buffet Torres da Avenida Angélica. Esse era o destino que os Rutko viam para sua descendência.
Quando o namoro de Moisés e Cleusa veio à tona, o couro comeu na Rua Ribeiro de Lima. Dona Rachela jamais aceitou que seu filho namorasse com uma gói. Segundo a própria Cleusa, a cor da pele tampouco ajudou. A super “ídiche mama” costumava dizer que a diferença entre elas duas era grande: uma usava salto alto, a outra sandália havaiana.
Moisés não viu outra saída a não ser manter o namoro fora das vistas da mãe. Nos finais de semana, visitava Cleusa na casa da família dela ou então saíam para passear. Mas , sob o jugo do mátrio poder , antes das 21h o jovem nidícola devia voltar pra casa.
E assim passaram-se 24 anos.
Dura é a lei do homem, mais dura é a lei de Deus. Dona Rachela faleceu em 1994, aos 64 anos. Poucos meses depois, Cleusa e Moisés passaram a morar juntos, no apartamento da família Rutko no Bom Retiro. Alguns anos depois, mudaram-se de lá para a Avenida Cásper Líbero, na Luz, onde vivem até hoje. O apartamento é alugado por Helena, uma prima de Moisés, que paga também o condomínio. Contam ainda com a ajuda de outra prima, Dona Lili, que dá ao casal uma cesta básica todo mês.
A única renda de Moisés é o auxílio doença do INPS, que ele na verdade preferia nem merecer. Internado no hospital Pedro II após sofer um acidente de carro nos anos 70, foi vítima de um insólito erro médico: uma enfermeira desajeitada quebrou uma agulha ao aplicar uma injeção nas nádegas do paciente. Não havia meios de tirar o estilhaço alojado no corpo de Moisés e ele foi obrigado a passar quase dois anos de bruços, sem poder andar nem sentar-se. Foi Dona Rachela quem finalmente conseguiu extrair a maldita agulha e Moisés carregaria para sempre seqüelas desse infortúnio, ficando impossibilitado de dirigir e tendo uma certa dificuldade para andar.
Cleusa continua trabalhando no ramo da segurança. Já há alguns anos ela é vigia de uma mansão no Pacaembu, onde passa a noite, das 19h às 6h. Sete dias por semana, todos os dias do ano, sem folga. Ela leva Moisés pra acompanhá-la, como ela diz, “de contrapeso”. O trabalho é tranquilo, só uma vez precisou enxotar um drogado que tentou pular o muro da mansão, de resto vazia.
No dia do casamento, Cleusa excepcionalmente tirou folga. Foi um grande momento, aguardado há mais de 36 anos. Ironicamente, quem patrocinou a festa foi um judeu polonês, que chegou ao Brasil na mesma época que Aaron e Rachela Rutko. Samuel Klein é o fundador das Casas Bahia, que por sinal têm hoje uma filial funcionando no prédio do antigo Mappin, na Praça Ramos, palco do primeiro encontro entre Moisés e Cleusa.
Nada mais impedia que os namorados finalmente oficializassem sua relação aos olhos da sociedade, a não ser o desafio de arcar com os custos de um casamento civil. Cleusa e Moisés ficaram muito gratos à Super Casas Bahia, que possibilitou a realização de um sonho tão antigo.
Mas o casal não quis aceitar a noite de núpcias no Holiday Inn. Preferiu receber os irmãos, irmãs e sobrinhas de Cleusa, a família dos dois, para uma festinha com direito a coxinha, kibe, cuscuz e outros quitutes.

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Teoria e Prática dos Domingos- O CONTO

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Show de lançamento – GERINGONÇA

Ricardo Teté lança CD Geringonça no Brasil

SESC Pompéia - 29/09

Ouça o CD Geringonça aqui

Serviço:
Ricardo Teté – Geringonça
SESC Pompéia – Projeto Prata da Casa (curadoria: Marcus Preto)
Terça-feira, 29/09/2009 às 21 hs
Grátis (por ordem de chegada)
Rua Clélia, 93 – Pompéia – São Paulo/SP

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A arte atravessa fronteiras…

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